ELA SEMPRE TEM RAZÃO


"O que você fez até agora da sua vida?" Ela me pergunta com aquele tom de raiva na voz. "Eu encontrei minha alma gêmea" respondi dando um sorriso e apoiando a cerveja no descanso de copo em cima da mesa. "Não é o suficiente, você tem quase 30 anos de idade e ainda não resolveu metade das coisas da sua vida" continuou. "Mas eu estou resolvendo, tem que ser tudo no tempo certo" eu disse "não sei por que sempre fala coisas assim pra mim, nem tudo é do jeito que a gente quer e nada se resolve do dia para o outro. E você, resolveu as coisas da sua vida ou esta só parada ao vento?" Perguntei. "Não é sobre mim, você com quase trinta ainda não consegue ouvir críticas. Não aceita quando está errado ou quando não tem razão. Parece uma criança, e  isso tem que mudar. Suas atitudes tem que mudar" e baixou a cabeça quando terminou de dizer, arrumando seus cabelos. São discussões desde o começo, não é à toa a loucura que vivemos todos os dias. Aquela sala tornou-se um templo de confissões, uma sala para pagar todos os nossos pecados. A comida ainda estava no forno, provavelmente queimada. Não sei cozinhar, nunca aprendi. Mas sei me virar, isso com certeza aprendi. Era uma noite especial, até esse momento, onde tudo saiu pela culatra em poucos minutos. E não há bebida que melhore e nem um jantar romântico que ajude. Tem coisas que precisam ser resolvidas e o quanto antes melhor. Aquele silêncio tomou conta do ambiente, o pior silêncio até agora. Levantei-me, fui olhar o forno pra tentar salvar o que restou do jantar. Nada restou. Não tem mais comida, mais amor, ou algum respeito... Acho que tudo acabou naquela noite. Naquela bela e iluminada noite, especial para uma briga digna de prêmio. "Vou pedir uma pizza. É aqui perto e eles entregam rápido" eu disse depois de jogar a comida estragada no lixo e quebrando o silêncio eterno. "Você que sabe" ela disse cruzando os braços, sentava-se à mesa. "As coisas eram mais fáceis no início, eu acho. Conversávamos mais." Ela continuou. "Eu lembro. O que aconteceu? Parecíamos mais felizes" Perguntei. "Acho que apenas nos perdemos um do outro. Aquele ar de respeito, conforto e uma segurança acabaram escapando entre nossas mãos" continuou "e não sei mais o que fazer, as coisas estão saindo do controle entre a gente, você esta diferente, não estamos mais na mesma sintonia e eu realmente não sei mais o que sinto por você" terminou tomando mais um gole de cerveja. "O que? Porque insiste em continuar dizendo essas coisas? Não entendo" perguntei. "Esse é o problema. Você nunca entende nada, só vê o seu lado das coisas. O seu ego parece ter consumido aquele cara que eu amei no começo. Tem muitas coisas que temos que aprender para continuar juntos, e parece que estou levando tudo nas costas, porque você não consegue enxergar outra coisa além do seu umbigo" disse com seus olhos lacrimejando. Os meus também. Ela continuou com a cabeça baixa, se lamentando e eu sem reação daquelas palavras. A campainha tocou, fui abrir. O cara da pizza parecia um amigo meu, levei um susto de surpresa. Vinte reais, o suficiente pra terminar a noite. Bebida e pizza. Clássico. Dei uma gorjeta e fechei a porta, levando a pizza para a nossa mesa. Abri e veio quatro queijos e metade banana com borda de catupiry, dessa vez acertaram o pedido. "Come um pedaço, metade é seu" eu disse. "Perdi a fome" respondeu. "Como perdeu a fome, sempre comeu como um monstro. Come, por mim?" Insisti. "Apenas estou sem fome e não consigo mais ficar aqui” levantou em direção a porta “Você precisa melhorar muita coisa, e eu também. Porque vida é assim, as pessoas são assim. Aprendem com os erros, seguem a vida, se viram sozinhas, buscam soluções.. e falta muito pra você, pra gente. E você sabe disso e consegue isso mas parece que prefere ficar inerte em relação a tudo. E levar na barrigada, nas costas, eu realmente não quero." Disse. "Eu pretendo melhorar" respondi mastigando um pedaço de pizza. "Quer saber, ja é tarde, e eu vou embora!" Disse. "Ainda é cedo" eu dizia, olhando para o relógio. "Não pra mim. Estou indo, irei cuidar de mim mesmo. Meu tempo” disse com a mão na maçaneta. E antes de sair me olhou pela ultima vez “E acho que temos que aprender algo dessa noite.  Estou indo, mas continuo sendo eu mesma e espero que também não mude, mas evolua. Nosso lugar e tempo não são agora, não é a gente. Por isso eu vou. adeus" E partiu. Sem um abraço ou ao menos um beijo de despedida, ela abriu a porta e se foi. E eu fiquei só. Observando a porta fechada, lembrando-me dos nossos melhores momentos, daquelas risadas bobas, segredos que só eu sabia. Até chegar o ponto onde tudo piorou e os erros começaram. Será que foram palavras, gestos, atitudes, pensamentos ou isso tudo? Não saberei com certeza. Deixei metade da pizza no prato e o resto na mesa. Olhei sua cerveja pela metade. Estava metade cheia ou vazia? Tentei escutar os passos da escada do lado de fora, esperando um retorno, um toque na porta "desculpa, eu te amo. Falei demais. Vamos resolver isso com o tempo e aprender um com o outro" o que não aconteceu. E nem iria acontecer. Acho que da vida, temos que tirar as coisas boas. E de tudo que vivemos, tirar como aprendizado. E acho que ela tem razão, na verdade, ela sempre tem razão.

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