NOSSA IGUALDADE

                                                        Imagem relacionada



“Nossa, vocês precisam ver. Ela colocou dread. Está linda” eu ouvi um dos nossos amigos a falar. Fiquei esperando, porque até eu fiquei curioso. O casal chegou “Oi” Ela disse abraçando todos enquanto eu olhava admirando, de uma certa maneira. Seu sorriso me chamou atenção, fora a boa energia. Foi bem rápido e chegaram junto com outras pessoas. E todos se perderam na multidão. Mas não esqueceria o rosto dela. Terminei a conversa que estava tendo com uma amiga minha. Falávamos sobre um passado sombrio que ela passou. Às vezes precisamos botar para fora, e acho que esse era o dia dela. Muitas vezes me acho um psicólogo, onde todos, ao me verem, gostam de contar seus segredos e pensamentos. E eu gosto disso, faz eu me sentir especial por transmitir tamanha confiança ao ponto de se abrirem tanto. Tentei absorver o máximo que pude e palpitar o necessário, sem me intrometer demais. Acho que deu certo, a senti mais leve “ele é massa, né?” Uma amiga em comum disse ao se aproximar da gente “e ela também, né?” me perguntou enquanto levava minha companheira de conversa. Fui buscar mais bebida. Suco na verdade, não estava bebendo. Entrei na casa, o caminho começava por uma cozinha que ficava do lado de fora. Havia uma mesa cheia de coisa, todas as coisas da casa pelo visto. Pratos espalhados, com uma galinhada pronta para quando a fome resolvesse aparecer de uma forma estrondosa. Cigarros de maconha, cerveja, música e bate papo sempre geram fome “cara, se quiser comer, tem galinhada ai, ok?” O anfitrião me disse ao reparar que eu olhava demais a galinhada “ah sim, obrigado. Você mora aqui sozinho?” Perguntei enquanto esperava ele mastigar “sim, e morarei por três meses. Meus pais estão fora do país. Miami. Então tenho toda a casa para mim” ele disse enchendo a colher de comida novamente. Virei a direita, abri a porta e entrei, agora realmente na cozinha. Não havia eletrodomésticos, apenas uma geladeira quase no meio dela, talvez uns dois armários também. A direita havia algumas bugigangas velhas e provavelmente sem um uso especifico. A esquerda também, mas tinha uma porta para o banheiro. E ao lado dessa porta havia um corredor estreito que levava para os quartos da casa, chegando enfim, ao que parecia uma sala de estar. Com televisão e tudo. Abri a geladeira. Muitas bebidas espalhadas, quase que não tinha mais espaço nela. Demorei para achar o suco que trouxe “cara, eu to muito louco” disse um rapaz que entrou as pressas, procurando a bebida na geladeira. Tinha cabelo cogumelo e usava aparelho, tinha uma aparência muito mais nova que a maioria. Balancei a cabeça rindo enquanto enchia meu copo “ e tu não está bebendo? Como assim?” Ele me perguntou quando viu que eu apenas coloquei suco em meu copo. “Bem, to dando um tempo. Uns motivos ai” ele apenas sorriu e saiu de uma forma apressada pela porta. Sabia que ele não entenderia nada do que eu falasse. Estava louco. Eu também estava, mas não era de bebida.


“Bem, e é por isso que eu te acho um cara bacana” me dizia o amigo que anunciou a chegada dela e de seus dreads. Tinha algum tempo que conversávamos, me falava um pouco dele e do que achava de mim. Eu balançava a cabeça enquanto falava o mesmo para ele, me sentindo feliz por me acharem bacana, na verdade não sou muito bom com elogios “estão gostando?” Ele perguntou para o casal que chegou, que disse sim. Quando olhei era ela. Dei um sorriso tentando entender um pouco da conversa dos dois “quanto tempo que já tem os dreads?” Perguntei quando percebi que dos quatros daquela roda, só nós dois estávamos calados “bem” ela deu um sorriso “fiz hoje, na verdade” “sério?” Eu disse enquanto ríamos “mas então o seu cabelo estava imenso, né? Porque dependendo do tamanho, eles encaixam. Tipo aplique” eu disse mesmo sabendo tão pouco sobre o assunto. Ela entendeu o que eu quis dizer, pegou o celular e me mostrou uma foto do cabelo dela black power grande “bonito também, das duas formas” eu disse tentando disfarçar que estava maravilhoso “e como que veio essa idéia de fazer os dreads?” Perguntei e olhei para os lados. Os dois, seu namorado e nosso amigo em comum, foram para um outro lugar. Voltei meu olhar para ela “bem, primeiro porque eu quero sempre mudar meu visual. Às vezes enjoo fácil da minha aparência” disse “ah, então você é aquela que cortaria o próprio cabelo sem nem pestanejar ou hesitar?” Ela fez que sim dando uma boa risada “meu Deus! Que medo de gente assim” eu disse por fim enquanto ela continuava explicando essa coisa de mudar, de se olhar no espelho e achar que tem que fazer algo. No tempo em que falava, eu prestava atenção em cada detalhe dela. Seu rosto combinava com seu belo sorriso e sua cor negra de ébano. Uma pele realmente bonita. Me imaginei conversando com a Alicia Keys e comentei com ela depois "sei. mas prefiro  a Viola Davis" ela respondeu a minha comparação. Percebi os gestos com as mãos, a jogada de cabelo, a forma de falar, a conversa e mente afiada, a mexida em seu copo de bebida, que tinha um canudo super legal, e no quanto aquilo era inspirador. Acredito que poderia ter feito uns quatro poemas em sua homenagem, o que de certa forma fazia mentalmente. E ela falava, uma voz forte e decidida “e a segunda coisa que me fez mudar foi o fato de eu finalmente me libertar. Aceitar quem eu realmente sou” continuou enquanto eu tentava me concentrar na história novamente “ser você mesma é a melhor coisa” deu um gole na bebida “sim, concordo. Um dia quero fazer, mas por enquanto ficarei nesse samurai aqui. E o bom de se libertar é que muita gente ta faZendo isso, a minoria está mais ativa e isso é bom. E como você vê isso? percebeu que estou te entrevistando, né?” Perguntei, rindo, e saboreando meu suco “tem problema não. Ah, eu acho bom. Na verdade precisávamos disso. Todos. Tem pouco espaço pra gente por ai, é triste. E também tem o lance da educação” ela continuou “como assim?” Perguntei “bem, eu faço faculdade de letras e trabalho como monitora e os alunos, bem, eles não tem mais interesse em nada de leitura, só no celular e coisas do tipo, entende?” Balancei a cabeça que sim “acho que entendo. E parar para pensar, essa geração está sempre lendo, em tablets e celulares. Mas não tem paciência para ler um livro inteiro” complementei “sim, isso mesmo” ela continuou “e por isso que temo pela educação. Porque as crianças de hoje tem um potencial muito bom, mas falta alguma motivação” deu mais um gole e bem nessa hora, seu namorado e nosso amigo chegaram “bora pegar bebida, você quer?” Seu namorado perguntou “depois eu pego” ela respondeu e ele foi pegar, os dois foram na verdade. Ficamos a sós novamente “acho que eu queria outra bebida sim, a minha ta acabando” ela deu um sorriso “vamos la, é rapidinho” e fomos. Passamos pela aquela cozinha de fora, mostrando a galinhada novamente. Entramos na cozinha de dentro. Peguei meu suco “você não ta bebendo nada de teor alcoólico?” Perguntou “bem, eu to nesse lance de ficar um mês sem beber porque estou terminando um livro” terminei de colocar o suco enquanto ela olhava atenta “percebi que chegava em casa, ficava louco de tanto beber e fumar para poder escrever. E de quinhentas palavras que escrevia, duzentas e poucas eram boas e o resto era apenas besteira. Ai percebi que estava perdendo tempo, tendo como base que escrevo todos os dias quase um capítulo. Então darei uma pausa até termina-lo” ela me olhou e deu mais um gole enquanto caminhávamos de volta para onde estávamos “e você escreve sobre o que?” Ela perguntou e comecei a explicar a história do livro sobre relacionamentos, segundas chances e auto conhecimento. Tudo isso da visão de um jovem com um relacionamento recém terminado e que acabou de se mudar, com um sonho de ser escritor. Ela gostou da história e ficou curiosa “isso aqui que estamos fazendo pode virar história e você nem sabe. Porque para mim tudo é história e todos temos algo a contar” dei um gole no suco “concordo” ela disse “fora o blog que eu mantenho. Depois te mando o link, se quiser” disse sorrindo e ela fez que sim, também sorrindo "me manda sim, eu quero ler depois. Estou nessa de ler poetas e escritores novos. Tem uns dois que leio ultimamente, se quiser te passo" disse "sim, quero ler esses também" completei "e o legal é que eles, ao escrever, tem um escrita errada mas a essencia, as histórias, o jeito me fascinam muito, entende?" me olhou nos olhos ao perguntar "sim, claro que entendo. assim é bem melhor" finalizei.



O assunto foi se extendendo, como se tivesse apenas nós dois na festa, e de fato estava. eu pelo menos sentia isso “se quiser ir no seu namorado, para ele não achar ruim nem nada você conversando aqui comigo” eu disse, percebendo que o namorado olhava para gente. Porque estávamos conversando perto um do outro “ele tem que achar ruim não” ela disse. Achei legal. Admiro mulheres com força de vontade e pensamentos próprios, além de todo o tipo de idéias. Ela era assim. Sua beleza de ébano parecia realçar tudo que ja li sobre quão bom é conversar com alguém igual a você. E isso, infelizmente, os brancos nunca iriam entender de fato. Que nem os homens nunca irão entender os motivos das mulheres em seus protestos e ideologias. Ainda mais uma mulher negra. Todos passamos por coisas ruins, isso é fato. Mas sendo negro e mulher, é como se tivessemos  que mostrar algo. Vivendo sempre em teste. E essa sensação é horrível. Era bom conversar de igual para igual “que nem aconteceu no shopping uma vez” ela continuou “fui atendida super mal. O segurança andou atrás de mim o tempo todo em que estava na loja. Me virei e perguntei se tinha algum problema e ele apenas respondeu que era procedimento da loja. E o foda era só comigo nesse dia” olhei de cara, lembrando que também havia passado por algo semelhante uns anos atrás. Na verdade até hoje passamos por isso. O racismo não acabou e nunca acabará. Ignorante é quem acha que o racismo não existe. Está nas pequenas coisas “e pior que nossos pais, que são brancos, nunca irão nos entender quando falamos algo assim” ela concordou “nunca irão entender. Bem, demorei para voltar lá. E minha mãe, depois que contei, ficou com isso na cabeça, e quando voltamos lá, assim que chegamos, ela já foi perguntar quem foi que fez isso comigo” ela deu um sorriso de leve e acho que entendi. Mãe é mãe, não importa o que te aconteça. “Ela depois veio me dizer que também sofreu racismo e ficou constrangida” deu outro sorriso enquanto mexia nos cabelos e me olhava diretamente nos olhos “e falei para ela que não era a mesma coisa. E nunca seria. E ela ficou com raiva” sorrimos juntos nessa parte, porque sabemos que nunca será a mesma sensação. Nunca “estava contando sobre o dia da loja, que minha mãe foi lá depois” ela disse quando seu namorado se aproximou, colocando o braço em seu ombro dando um sorriso “bem, eu vou ali colocar mais bebida, gente” disse e sai. Na verdade, fiquei sem graça de ter tomado a atenção dela por quase a noite toda. Provavelmente seu namorado também queria passar um tempo com ela. E temia dele achar ruim, por isso eu fui.



Sentado olhando a grama, em uma cadeira reclinável, a noite estava bonita. Pouca estrela e muito vento, mas bonita. O baseado ajudava um pouco na medida que encarava aquela noite. Olhava ao redor, todos ali estavam loucos, se divertindo, conversando, fumando e bebendo. Era uma noite realmente boa. Todos estavam felizes. Mas porque só eu estava calado? Provavelmente perdido em memórias. Minhas piores memórias. Dependendo do ânimo e da bebida, toda memória passa a ser ruim. Tentei limpar minha mente. Olhei para frente, e ela me olhava. Balançando novamente seu copo de bebida. Fiquei meio sem graça. Peguei o baseado e dei mais uma tragada e passei para ela. Por um momento olhei seus dreads imaginando que, talvez um dia, eu colocaria no meu cabelo também. Às vezes ela ficava sozinha, as vezes dançando, conversando e também pensando. A música, nessa noite, estava bem eclética para sustentar os convidados também ecléticos. Porque o bom é misturar todos os gêneros, raças e idéias. Tudo é válido quando se quer fazer o bem, não importa a quem. E essa noite estava propício a isso. Eu sentia “ainda bem que você me trouxe” eu disse para um amigo meu “pois é. Você nem queria sair de casa” ele disse enquanto ríamos. Peguei novamente o baseado. Olhei mais uma vez para ela, me olhou por alguns segundos antes do seu namorado chegar e chama-lá para dentro da cozinha “depois vamos comer a galinhada, não esquece” a namorada de um amigo meu disse me surpreendo por trás dos meus ombros “sim, claro” tinha respondido antes mesmo de identificar quem era. Ela sumiu por um momento, levando seus dreads. A noite foi desenrolando enquanto a roda de amigos crescia envolta da mesa. Pegaram um violão, na medida que os tocadores estalavam seus dedos mágicos. Decidi não tocar, não estava no ânimo para isso. Apenas assisti as vozes, erros, brincadeiras e o grande show particular que estava acontecendo. A noite estava indo embora. Parei de cantar uma canção quando olhei para o lado e vi seus dreads passando, ao lado do namorado. Encostaram em uma árvore que ficava na parte lateral, na “esquina” da casa. Percebi que passava mal, cabeça baixa por alguns minutos. Seu namorado ficou lá lhe fazendo companhia, segurando seus belos dreads. Achei legal da parte dele. Companheiro tem que ser em todas as horas. Me lembrei quando tinha alguém e cuidava dela em momentos assim. É bom cuidar e ser cuidado. Será que alguém estaria cuidando dela, assim como eu cuidei? Tentei não olhar muito, mas torcia para que melhorasse e ficasse tudo bem. Para que pudesse ver novamente aquele belo sorriso e a jogada de cabelo misturados com seus gestos. Voltei minha atenção para a roda musical, tentando entender qual música tocavam agora “estamos indo pessoal” seu namorado passou despedindo-se de nós. Um por um. Pelo aperto de mão tentei passar um pouco de boas energias para ela. Espero que tenha conseguido.



“Está amanhecendo, melhor irmos eu acho” eu disse para o casal de amigos que vieram comigo “sim, vamos agora” ela concordou comigo “mas antes uma foto” e parou no meio da grama para tirar a foto da bela manhã que surgia. Era lindo de ver. Meio rosa com amarelo, acredito eu. No caminho estávamos acabados, cansados mas, dependendo, pronto para outra “você ainda tem a tatuagem para fazer hoje, né?” Meu amigo me disse, sentado ao meu lado “sim, mas só a tarde. Agora vou dormir como se fosse a minha última noite na terra” rimos enquanto caminhávamos para o belo sol que nascia naquela bela manhã. Me lembrei do sorriso dela, enquanto me lembrava que havia adicionado ela em minhas redes sociais. Essa que no une inconscientemente. Como é bom ter alguém ao lado para o que der e vier, quem sabe eu encontre algo assim novamente. E permanentemente. Nem que seja por tempo indeterminável. Acelerei e aumentei um pouco som. Por sorte tocava uma das minhas músicas favoritas. Cantei em pensamentos na curva que deixava o casal. Peguei meu caminho para casa, acreditando que essa noite foi diferente. E que era realmente para eu ter ido. Ainda bem que não escutei meus pensamentos. Ainda bem. O frio aumentou assim como essa saudade!


usado no livro!!!!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O VENTO...

AQUELE SORRISO

CONFISSÃO - PART II