NOITE DE ANIVERSÁRIO

É noite. Anoiteceu nesse dia que foi cinzento. Meus aniversários são sempre assim, não tem nada no lugar onde falta algo. Me acostumei. Comprei algumas bebidas pra tentar espairecer e me lembrar que, na vida, somos sozinhos. Não há nada que valha a pena, porque tudo nos traz sofrimento. O apego nos traz sofrimento. E nessa noite, entre poemas, cigarros e bebidas eu vejo que estava certo. A solidão é boa, mas machuca quando não se tem notícias de quem a gente ama. E não amar é tão fácil quando se está quebrado por dentro. E por fora. O cansaço me leva, ou melhor, me prende a um único lugar que me sinto bem: Trancado em meu apartamento, escutando um bom disco na vitrola, bêbado e fumando um baseado. É assim que surgem algumas das melhores idéias e inspirações.
Meu presente sou eu, comigo mesmo e um pouco mais de mim. E é o bastante, não é? Sentado na cama, escrevo pequenos textos que mais parecem confissões íntimas de uma mente nem tão perto de ser livre de si mesmo. Com saudade e tristeza misturados a choros e lembranças, aquela dor voltou e não sei uma maneira de expulsá-la novamente. É difícil. Muito complicado ser nós mesmos nesse mundo que insiste em querer nos mudar a todo momento, querendo fazer de nós algo que não somos. Em meio a tantas palavras eu ainda não sei o que falar, fico apenas a olhar para porta esperando que se abra e alguém entre para me salvar. Seja desse mundo ou pior: de mim mesmo. Há tempos que essa porta não é aberta, porque a chave está dentro de mim e isso basta. Basta pra eu saber que quem eu realmente espero é apenas eu mesmo. Será? Mas porque esse vazio e essa saudade de algo que nunca vi? Não sei explicar e nunca saberei. Sabe porque? Por que continuo a beber, fumar e a escrever coisas da minha cabeça, esperando que no futuro alguém leia e se identifique com algo que dói e machuca tanto. Tanto que ninguém imagina o que bate em meu peito, ou que bateu nele que o derrubou e nunca mais foi o mesmo, e talvez nunca será. Ha uma cura para isso? Eu também não sei explicar, não pergunte algo que não sei. O tempo é bom, mas é demorado, lento e sorrateiro que traz verdades mas também incertezas. Dessas que nos consomem por inteiro, fazendo a gente entrar em colapso com nós mesmos. Onde eu queria estar em meu aniversário? Provavelmente protegido e com um coração refeito dos cacos espalhados no chão, pela vida. É, vida, realmente sabe nos mostrar o que há de pior pra gente. Sim, o que há de pior. Tem o melhor, mas o pior? Ah, esse é arrebatador. São verdades, segredos, pensamentos e sonhos que mais tememos falar ou mostrar e a vida nos joga nesse mar de sensações que fazíamos questão de esconder. E pra que?
Continuo teclando, esperando algo acontecer nessa noite de comemoração, mesmo que a melhor companhia seja apenas eu. É uma celebração, eu acho. Ah, saudade. Que saudade. Escrevo para mim e apenas isso. Esperando algo ou alguém, enquanto olho a porta de entrada e saída, que mais teve saída do que tudo na vida. Assim é bom, que eu aprendo, nem que seja da pior maneira possível, que as coisas são passageiras. Nada é para sempre. Pessoas vem e vão e no final, existe apenas você no leito de morte enquanto lhe trazem comida e falam qualquer coisa para o tempo passar. Sem saber que o tempo para nesse momento. Simples assim. Enquanto isso fico aqui, sentado esperando você chegar para me levar pra longe. Espero aqui tentando criar o melhor poema, ou texto, que transmita o que realmente valeu a pena eu ter vivido.
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